ARTIGOS


EPOPÉIA MOSCONI
Ms. Aliduino Zanella

    O presente artigo resulta de pesquisa propiciada graças ao Programa Brasil Latino, sob a coordenação de Arno Dal Ri e Jayme Paviani, no resgate e tratamento científico com a devida relevância a que merece na reconstituição de acontecimentos e compreender fatos, em especial, pioneiras obras educacionais empreendidas em Caçador – SC, pelo casal, emigrante italiano, Dante e Albina Mosconi.

    O reconhecimento reminiscente, mediante evocação do conhecimento através da memória oral, bem como a consulta a documentos são instrumentos utilizados.   

    Trajetória empreendida pelo engenheiro edificador e reconstrutor de ruínas na Itália, causa da desumana I Guerra Mundial, ao pioneirismo no ensino, contributivo primordial para o desenvolvimento do município de Caçador, perpassa inimagináveis obras empreendidas pelo glorioso casal de italiano originário de Bérgamo.

    Dante, personagem histórico, de princípios éticos e religiosos, portanto, contrário à violência, auxilia o Governo italiano na reedificação de seu país devastado pela guerra. Na qualidade de engenheiro, ajuda na reconstrução de estradas e pontes destruídas pela I Guerra Mundial. Mais precisamente em Caçador, empreende inúmeras obras civis e educacionais.

    Com relação ao ensino, a escola de Educação Básica Paulo Scheiffler e Colégio Aparecida de Caçador, que se originaram do Colégio Aurora, sob a coordenação de Dante. As duas escolas de educação básica, a Dante Mosconi de Caçador e a Albina Mosconi, do Município de Macieira, seus nomes foram adotados em sua homenagem. A Casa da Cultura também foi lembrada em nome de “Dante e Albina Mosconi”. A lembrança dos pioneiros da educação, dessa forma, estaria preservada. Com relação aos colégios Aurora e Nossa Senhora Aparecida, estes assumiram identidades das respectivas congregações religiosas que os adquiriram. Atualmente a estrutura física do Colégio Aparecida está ocupara pelo SENAI e uma escola particular. O curso primário, oficializado em 1934, adota o nome de Paulo Scheiffler e se transfere posterior em instalações próprias. Em relação às obras de engenharia empreendidas em Caçador e região, quase nada se sabe o que evidencia a necessidade de pesquisa para o seu resgate.

    O casal repousa para a eternidade em humilde jazigo localizado no Cemitério Municipal de Caçador. Seus corpos jazem em sua última morada, a eterna, em edificação de alvenaria mista, ou seja, tijolo, pedra britada e areia ligada por argamassa. Na sua superfície, centrada e de menor perímetro, está encravada uma chapa de mármore. Em sua cabeceira de cor branca, ergue-se uma cruz já desgastada pelo tempo. Defronte e abaixo da cruz, em seu epitáfio lê-se JAZIGO DAS FAMÍLIAS BRESCIANINI E MOSCONI, tão somente. No mesmo jazigo, descansam duas famílias italianas: o pai de Dante, que falecera por ocasião de uma viagem de visita ao filho, a esposa Albina, o irmão, a cunhada e sobrinhos.

    Motivados mediante esta constatação o presente artigo intenciona resgatar um pouco as obras empreendidas pelo ilustre casal em Caçador – SC. Dante Mosconi nasceu no dia primeiro de novembro de 1891, em Bérgamo, na Lombardia. Nascida também em Bérgamo – Itália, Antonieta Brescianini, sobrinha de Dante, única parente viva que mora em Caçador, e que cuidou do casal e os confortou até sucumbirem às suas vidas terrenas, em seus últimos dias.

    Dante morreu, em data de 21 de maio de 1974, arquitetou muitas obras, dentre as quais a Catedral de Caçador e a Igreja Matriz do Município vizinho de Videira.

    Ainda na Itália, Dante, na qualidade de engenheiro, ajudou o governo a reconstruir casas, pontes e estradas destruídas pela guerra. Portanto, trabalhou em sua terra natal, após ter concluído seus estudos em que se formou em arquitetura, por volta de 1914 a 1923, ainda em meio a repercussões de uma época em que a Europa era contraditoriamente marcada pelos ideais liberais e nacionalistas, por um lado, que encontravam grande apoio da burguesia. Por outro, por sua vez, essa mesma burguesia temia seriamente a possibilidade de rebelião de trabalhadores inspirados nas idéias socialistas, reforçadas pela publicação do Manifesto Comunista que proclamava a união de luta do proletariado contra as injustiças da sociedade capitalista, escrito por Marx e Engel, em 1848 (COTRIM, 1996, p.111).

    Para melhor entender, retome-se à Idade Média, segundo Souto Maior (s.d. p. 364), época em que a Itália era uma área dividida em várias unidades políticas, independentes entre si e os nacionalistas pregavam que o povo italiano deveria unir-se num Estado italiano. Passo inicial dado pelo rei Carlos Alberto da Sardenha que abre caminho para a unificação italiana, seguida pouco depois por Camilo de Cavour. Passa a consolidar-se quando Giuseppe Garibaldi, esposo da catarinense Anita – heroína dos dois mundos – ao comandar um exército, chamado de camisas vermelhas, na cidade de Cálatafini trava batalha decisiva para a unificação da Itália, graças à garra e a coragem de seus soldados. Garibaldi “praticamente foi o construtor da fase final da unidade italiana”. (SOUTO MAIOR, s.d. p.366)

    Por volta de 1925, os países europeus lutavam com dificuldade para reconstruir a Europa, no pós I Guerra Mundial que deixou um saldo espantoso de dez milhões de mortos, vinte milhões de feridos, destruição, ruínas dos campos e das fábricas, crise econômica, desordem e pobreza. (SOUTO MAIOR, p. 400). Na Itália e de igual modo em toda a Europa, a economia foi gravemente abalada. A monarquia parlamentar conduzida pelo rei Victor Emanuel II, proclamado em 1861, mostrou-se incapaz de restabelecer a ordem no país provocada pela agitação social frente à fome, inflação e o desemprego. Na impossibilidade de solucionar os graves problemas e diante da crescente movimentação política empreendida pelos trabalhadores, “a alta burguesia italiana passou a ver com bons olhos o programa político do Partido Nacional Fascista...” (Cotrim, 1996, p. 152).

    Fortemente pressionado, Victor Emanuel III encarrega Benito Mussolini a formar um novo governo em 28 de outubro do ano de 1922. Dessa forma, assume o governo o ditador, Benito Mussolini, criador do sistema político de nome fascismo, que em meio a métodos de violência e fraudes, garante a vitória do partido fascista nas eleições parlamentares de abril de 1924. Como num sonho, Mosconi prevê atrocidades a serem cometidas pelo ditador que culminaria com o massacre da desumana II Guerra Mundial. Diante do regime imposto, contrário às suas crenças, não resta outra alternativa a não ser a de emigrar para o Brasil, juntamente com sua esposa Albina, no início de 1923, estabelecendo-se primeiramente em São Paulo, onde Albina lecionou línguas. Por motivos de saúde, logo se transferem para o Rio Grande do Sul. Fixam-se inicialmente na cidade de Sarandí, em plena agitação política, que marcou o governo Artur Bernardes.

    A Revolução de 1.924, comandada pelo capitão Luiz Carlos Prestes, aliado aos remanescentes da revolução militar paulista, comandados pelo general Isidoro Dias Lopes, convulsionava a região. Ali, o casal recém-chegado de um país devastado pela Guerra Mundial, passou a assistir cenas de famílias castigadas por uma revolução regional. Considerado opositor ás forças dominantes, Dante foi preso e ameaçado de morte por fuzilamento. Entretanto, o providencial ferimento de um filho do comandante das forças locais, fez com que o ’Doutor Mosconi’ fosse convocado para operá-lo, ao que ele aceitou sem dizer que era apenas arquiteto; o sucesso da operação salvou-lhe a vida. No entanto, dá outra versão ao fato:

    Fato interessante, diz, o filho de um dos comandantes levou um tiro e não havia médico. Dona Albina que era parteira formada, diante da prisão de Mosconi e, talvez, por um ato de desespero, disse que seu marido era “médico”. Imediatamente mandaram-no chamar. Ao chegar, deparando-se com o ferido, pediu para que rasgassem a farda. Após certa resistência, o apertado paletó foi tirado. Nesse instante intensifica-se a hemorragia. Por sorte do “Doutor” Mosconi, o soldado morreu diante dos olhares apreensivos do pai-capitão. Comovido, o capitão o mandou soltar.

    É preciso retomar brevemente a história política brasileira para melhor entender o momento em que o casal Mosconi se estabelece no Rio Grande do Sul. Segundo Ribeiro (1988), período este em que o Brasil passava por nova crise do mercado agrário-comercial exportador dependente com acentuado declínio das oligarquias e o surgimento de novas forças sociais, em decorrência das modificações na estrutura econômica em que o parque manufatureiro passa a ter papel indispensável no conjunto da economia brasileira, estruturado, dessa forma, um modelo nacional-desenvolvimentista, centrado na industrialização.

    Dessa nova ordenação, de um lado, a classe dominante representada pelo acentuado surgimento da burguesia industrial polariza contra um dos setores dominantes representada pelos cafeicultores. Por outro lado, outro componente social, o operariado em emersão social, organizado em manifestações urbanas, retratava de forma mais objetiva a insatisfação da classe dominada.

    Dentre as manifestações surgem os movimentos grevistas e uma série de revoltas, movimentos contestatórios, liderados pelos militares, “como a do Forte de Copacabana, em 1922, a liderada por Isidoro Dias Lopes, em 1924, e a Coluna Prestes – 1924 a 1927” ( RIBEIRO, 1988, p. 88).

    Com relação aos movimentos grevistas, conseqüência do crescimento quantitativo dos trabalhadores na indústria, segundo Koshiba (1996), incidência e suas reivindicações ganham peso. Nesse processo de consciência e organização do operariado organizado em sindicatos, foi significativo o papel dos emigrantes italianos e espanhóis, valendo-se da experiência sindical trazida de seus países de origem, responsáveis também pela difusão do anarquismo.

    Um arranjo político é feito entre os estados de Minas Gerais e São Paulo na sucessão do presidente Epitácio Pessoa, indicando Artur Bernardes, em desacordo às pretensões propostas pelos estados de Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do sul, que não apoiavam sua candidatura. Estes contrários formam assim, um movimento chamado de Reação Republicana, contra a candidatura de Bernardes. Apresentam, em contrapartida, Nilo Peçanha, candidato opositor de Bernardes. No entanto, as eleições foram vencidas por Artur Bernardes, que acaba eclodindo uma rebelião formada por jovens oficiais do forte de Copacabana, para impedir a posse de Artur Bernardes em 5 de julho de 1922.(KHOSCIBA, 1996, p.259).

    O descontentamento contra a oligarquia dominante chega ao seu auge com a chamada revolta tenentista. Em abril de 1925, no Rio Grande do Sul, Miguel Prestes, aliando-se aos revoltosos contra o presidente Artur Bernardes, do movimento chamado de Reação Republicana Contra o Seu Governo – levante sob chefia do General Isidoro Dias Lopes, forma a denominada Coluna Miguel Costa-Prestes. Prestes obtém várias vitórias contra as forças legalistas. A Coluna fica reconhecida pelas táticas adotadas após percorrer cerca de 24 000 quilômetros e a enfrentar as tropas federais e os jagunços dos coronéis.

    Em meio a esses acontecimentos, o casal Mosconi transfere-se de Sarandí para Passo Fundo a trabalhar em projetos de construções, inclusive no Departamento de Engenharia da Prefeitura Municipal deste município. Dona Albina ali lecionou Matemática e Francês no Colégio dos Irmãos Maristas. Sobre a decisão do casal Mosconi a transferir-se para Caçador, há algumas divergências nos relatos das entrevistas realizadas. Sem entrar no mérito da questão, o que importa para o momento é que o casal se estabelece em Caçador no início de 1928. De imediato, “Albina instalou e dirigiu uma escola municipal, que mais tarde passou para o Estado, sob a regência da professora Apolônia Capitulino Milis”. Dante inicia seus trabalhos na engenharia de construção de uma ponte sobre o Rio Jangada da estrada federal ligando São João, hoje Matos Costa, à fronteira com a República da Argentina. “Matos Costa, por volta da década de 50, foi o maior arrecadador de ICMS do Estado de Santa Catarina. Para exportar toda essa madeira serrada para a Argentina, o Governo construiu uma rodovia que deixa hoje somente vestígios e algumas pontes distintas”.

    Segundo Thomé (1993, p. 43), foi no período de 1923 a 1934 que a região de Caçador despertou para a indústria da madeira na exploração dos vastos e densos pinheirais, sendo os italianos protagonistas do pioneirismo, com a instalação das primeiras serrarias. Mosconi instalou, logo após a sua chegada a Caçador, um moinho colonial movido pelas águas do Rio do Peixe, de nome Mosconi & Kurtz, na década de 30. A partir de então Caçador desperta para o progresso. Dante e Albina fora o casal responsável maior pelo justo prestígio de Caçador como importante centro cultural de Santa Catarina e sem exagero, deve-se ao próprio progresso econômico aos seus empreendimentos. Portanto, merece o resgate de suas obras empreendidas em sua trajetória por Caçador. Para o presente, restringir-se-á apenas a enumerar as obras mencionadas por Raisel em seu documento a “Era de Mosconi na História de Caçador”.

    O colégio Aurora, único oficializado entre as estações ferroviárias de Porto União e Marcelino Ramos, foi a primeira obra educacional a que começou a funcionar inicialmente em duas casas de madeira em instalações precárias; em 1929 instalou-se o Tiro de Guerra n º 568, importante unidade militar com sede no próprio colégio, graças à árdua batalha de Mosconi. Ali permaneceu instalado e funcionando gratuitamente até sua sede própria estar concluída. Concluída a obra, transfere-se então em 1945; em janeiro de 1930, inicia-se a construção do prédio, que abrigaria o Colégio Aurora, em estilo colonial, projeto de autoria do arquiteto Dante Mosconi; em 1931 é oficializado o Curso Comercial, que vinha funcionando desde 1929, com formatura da primeira turma de “Guarda-Livro”; em 10 de junho de 1931, o Sargento Milton Moreski, do Tiro de Guerra, funda o Corpo de Escoteiros nas instalações do próprio colégio; em 1932, é fundado o Curso Normal particular, equiparado A Escola Normal Estadual que mais tarde foi repassado as Irmãs Catequistas da Congregação de São José, passando a denominar-se de Colégio Nossa Senhora Aparecida; em 29 de maio de 1934, pelo Decreto no. 601, oficializa o Curso Primário já existente, criando o Grupo Escolar Prof. Paulo Scheiffler, instalado no próprio ginásio; em 18 de julho de 1934 inaugura-se o Grupo Escolar pela Portaria no. 3.837 de 04/07/1934, sob a direção de Mosconi. A partir de então, uma série de problemas e dificuldades de ordem administrativo-financeira se apresentam. Tenho para mim, que se a administração fosse mais comercial e menos idealista, o impasse financeiro seria solucionado. Certa feita, cheguei a abordar o assunto com o Dr. Mosconi... mas ele colocava sempre a força de sua fé e do seu idealismo acima da pragmática gestão financeira. Rendi-me à sua autoridade incontestável. Por outro lado, a esta altura dos acontecimentos, talvez já fosse tarde para alterar a filosofia administrativa do colégio. É que, nossa legislação, fruto de um nacionalismo caboclo exacerbado pela última guerra, criava outro grande obstáculo, somando-se ao primeiro: exigências legais impediam que estrangeiros dirigissem estabelecimentos de ensino. O casal Mosconi jamais quis naturalizar-se! Eram incapazes de renunciar à sua Itália querida! Tanto que, ao ser interpelado pelo Governador Nereu Ramos, sobre este problema, a resposta de Dante foi imediata: ‘como poderei ensinar patriotismo aos meus alunos, se renegar a minha Pátria?’. Desconheço sua opinião quanto à possibilidade de entregar a direção do colégio para pessoas estranhas à sua família.

    Diante do impasse, a última solução viável era a venda. Na busca de possíveis pretendentes, encontraram um professor protestante, de Passo Fundo, bastante interessado; mas os Mosconi se recusaram com ele negociar. Não entregariam sua obra, construída sob a égide da fé católica, a qualquer outra religião. Tal era a firmeza de suas convicções.”

    Paganelli (2004), é da mesma opinião ao dizer que a única falha com relação à não sustentabilidade do Colégio Aurora, conseqüência da venda aos Irmãos Maristas é que Mosconi, diz Paganelli, não levava em consideração a parte comercial, por se dedicar exclusivamente ao ensino e ajudando jovens que não tinham condições financeiras para estudar. O ensino era muito bom e adiantado. no Ginásio estudavam Cálculo Integral de Cálculo Diferencial. Também falar de sexo naquela época era considerado tabu. No entanto, Dante reunia numa sala os meninos, enquanto Albina reunia as meninas noutra sala nos finais de semana e os orientavam para a vida e para se habituar sempre a agir corretamente. Em todos os ensinamentos que transmitiam, seguiam os fundamentos de Dom Bosco: o aluno era sempre bem assistido e vigiado.

    Dom Bosco a profecia de Brasília quando nem se falava ainda da capital da república do Brasil ser transferida para o Planalto Central, ele teve um sonho, e no sonho via uma cidade diferente das outras – completamente diferente – no centro de um país e esta cidade seria a capital desse país e depois a capital do Continente que mais tarde tornar-se-ia uma cidade de projeções internacional, como os EUA hoje, comenta.

    Quanto à engenharia, pouca coisa foi encontrada registrada, evidenciando largo campo de pesquisa. Registra-se para o presente artigo, a Catedral São Francisco de Assis cujo arquiteto da obra foi Dante Mosconi. Em seis de outubro de 1940 foi abençoada a pedra fundamental da catedral, embora a construção já estivesse na altura das janelas. Em dezoito de outubro do ano de 1959 a obra, já concluída, foi inaugurada.

    A arte de criar espaços organizados e animados para abrigar as diferentes atividades humanas em obras, efeito do trabalho ou ação em edificações, sejam arquitetônicas, sejam de ação moral, éticas ou religiosas, evidenciam o caráter humanitário do casal Mosconi. Ele, arquiteto de formação e ela, enfermeira. Não restringiram suas atividades em projetar obras de arquitetura física e atividades de saúde, tão somente. Nem tampouco declinaram em torno de posses e domínios, caminho trilhado pelos sistemas capitalistas hegemônicos, prepotentes e egoístas, prática comum em potências econômicas mundiais globalizadas. (ZANELLA, 2003, p.5). Pelo contrário, deixam para a eternidade um exemplo de vida, pelas obras empreendidas e demonstradas, oficializando, dessa forma, o pioneirismo em uma terra adotada de coração e que, certamente, se eternizarão para a história.

    Para finalizar, deve-se dizer que a herança cultural, seja a representada por obras físicas, do patrimônio material, quanto às representadas por valores, crenças, atitudes e normas cultuadas, as não-materiais, legado dos Mosconi, clamam, por parte das autoridades constituídas e da população em geral, tratamento digno a que merecem. Cultuar herança de outros grupos humanos sem a devida identidade dos que nos antecederam e impulsionaram o desenvolvimento dessa terra é o mesmo que dar a luz a uma criança e em seguida, abandoná-la para criar e educar outra no seu lugar.

Referências bibliográficas
COTRIM, Gilberto. História e Consciência do Mundo. São Paulo: Saraiva, 1996.
KOSHIBA, Luiz; PEREIRA, Denise M. F. História do Brasil. 7. ed. reev. e atual. São Paulo: Atual, 1996.
RAISEL, Izaltino. A era de Mosconi na História de Caçador: estudo sobre a vida e obra do casal Dante e Albina Mosconi no campo da Educação – Marco da História de Caçador. Caçador: FEARPE, s.d., mimeografado.
RIBEIRO, Maria Luiza Santos. História da Educação Brasileira: a organização escolar. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1998.
SOUTO MAIOR, A. História Geral. São Paulo: Companhia Editora Nacional, s.d.
THOMÉ, Nilson. 1993
ZANELLA, Aliduino. Apresentação. In: Facetas da Colonização Italiana: Planalto e Oeste Catarinense. Joaçaba: UNOESC, 2003.

Entrevistas gravadas
BALVEDI, Regina.Entrevista concedida ao autor, Caçador, em 12 de abril de 2004.
BRESCIANINI, Antonieta. Entrevista concedida ao autor, em 12 de abril de 2004.
PAGANELLI, Domingos. Entrevista concedida ao autor, Caçador, em 06 de abril de 2004.

ENTREVISTAS realizadas com alunos dos estabelecimentos de ensino.


BREVE HISTÓRICO DA CULTURA ITALIANA EM CAÇADOR –SC
Aliduino Zanella*

 

    O município de Caçador localiza-se a 396 Km de Florianópolis, encravado no Meio Oeste Catarinense, na Região do Vale do rio do Peixe. De colonização italiana, possui área de 974 km2 e uma população de 76 mil habitantes, segundo o último censo. Ocupa a quinta colocação na exportação e o título de maior produtor de tomate do sul do Brasil. No ramo madeireiro, ostenta a maior produção nacional, sendo considerada capital industrial do Oeste Catarinense.

              

    As primeiras famílias descendentes de italianos a chegarem a Caçador aconteceu antes do município existir, por volta do ano de 1919, provenientes do vizinho Estado do Rio Grande do Sul, trazendo consigo a vontade de trabalhar, iniciando, em princípio, na agricultura, destacando-se no plantio de trigo, milho, feijão, no cultivo das parreiras e na produção do vinho, destacando-se como grande e primeiro produtor de uvas e vinhos do estado. Em seguida dedicam-se na indústria da madeira, destacando-se como grandes produtores e toda madeira vendida para construção de Brasília, a nova capital do Brasil*. Junto trazem costumes, a alegria demonstrada através de canções folclóricas, festas e a farta culinária.

 

    Com o fim da Guerra do Contestado e com a abertura da estrada de ferro, milhares de descendentes de italianos egressos do Rio Grande do Sul estabeleceram-se em colônias que, na região, apresentavam-se promissoras.  Estabeleceram-se ao longo da recém construída ferrovia, ao lado de outros grupos étnicos, alcançando então, o Vale do Rio do Peixe.

 

 

1 MIGRAÇÃO/IMIGRAÇÃO ITALIANA EM CAÇADOR

 

    A saga dos descendentes de italianos e italianos em Caçador divide-se em migração e imigração. A migração em relação às atividades aqui desenvolvidas divide-se em atividades na agricultura e na indústria da madeira. A chegada dos primeiros agricultores teve início após a Guerra do Contestado e da construção da ferrovia São Paulo-Rio Grande, a partir do ano de 1917. Eram famílias de agricultores vindas das velhas colônias de imigrantes italianos estabelecidas na Serra Gaúcha. Nessas terras “lella cucagna” (sorte-fortuna), geraram também muitos filhos. Daí a necessidade da busca de novas terras, o que aconteceu também em toda a Região do Contestado. Destacam-se logo com a produção de uvas e vinhos. A uva era transportada por trem para São Paulo. Há necessidade de fundar um Sindicato Rural, sendo o primeiro do estado. Em seguida dedicam-se na indústria da madeira, destacando-se como grandes produtores. Junto trazem costumes, a alegria demonstrada através de canções folclóricas, festas e um ano após, por volta de 1918, estabeleceram-se, em Caçador, famílias de madeireiros, também provindas da Serra gaúcha, para explorar a araucária (o pinheiro brasileiro), a imbuia e outras madeiras nobres abundantes na região.  vendida para construção de Brasília, a nova capital do Brasil**. Também acontece em Caçador a chegada de imigrantes italianos, em pequena quantidade é bem verdade, mas significativa em seus legados, contribuindo na construção deste município.

   

    Dentre os imigrantes, destaca-se o casal Dante e Albina Mosconi. Ao assumir o ditador Benito Mussolini, fundador do partido fascista, contrário as suas idéias, fogem da Itália, e após percorrer algumas regiões no Brasil, estabelecem-se em Caçador no início de 1928. Originários de Bérgamo – Lombardia, ele engenheiro e ela enfermeira, fundam o Colégio Aurora, primeiro educandário em toda a região. Neste Colégio é criado o Curso Comercial que formava “Guarda – Livro”; o Colégio Normal, atual Aparecida; curso primário, atual Paulo Scheiffler. O mesmo abrigou, por muitos anos, a Escola Nayá Gonzaga Sampaio. Dante, na qualidade de engenheiro, projetou casas, estradas, pontes... Dentre os inúmeros projetos destaca-se a Igreja Matriz de Caçador e a de Videira.

 

 

2 RESGATE E DIVULGAÇÃO DA CULTURA

 

    Com relação à cultura, desde a chegada às novas terras, pouco se fez. As manifestações folclóricas frente às inúmeras dificuldades, perseguições, conseqüência da II Guerra, e a dança proibida pela igreja. Somente mais tarde, procurando resgatar e preservar toda uma cultura, adormecida, ao longo dos anos, surge um movimento étnico com a criação do Coral Italiano Aurora através do Irmão marista Pedrinho Tombosi, em primeiro de novembro do ano de um mil novecentos e oitenta e um e, erguendo, dessa forma, uma bandeira de trabalho cantando, falando, cozendo e, com isso, representando a cultura trazida dos antepassados. No ano de um mil novecentos e oitenta e três é realizado o I Baile do Pão e do Vinho. No ano de um mil novecentos e oitenta e oito surge o grupo de dança Gira L’Amore. No ano de um mil novecentos e noventa e cinco é fundada a Associazione Della Gioventù Triveneta di Caçador. Por necessidade de aglutinar as associações ítalo-brasileiras da região, por orientação do cônsul Marcelo Alessio, criou-se a Federação de Entidades Ítalo-Brasileiras do Meio Oeste e Planalto Catarinense – FEIBEMO, aos dezesseis dias do mês de agosto do ano de mil novecentos e noventa e seis, com sede e registro em Caçador – SC. Esta federação agrega atualmente mais de trinta associações e, por determinação estatutária, tem por finalidade coordenar, orientar e facilitar a operacionalização de suas associadas, organizando e favorecendo contatos de interesse entre federação e federadas junto ao consulado italiano e a Itália. A FEIBEMO, através do Centro de Cultura e Língua Italiana, realizou dois cursos de formação de professores para as redes municipais de ensino. Um em 06 a 24 de janeiro de 2003; outro em 25 a 30 de julho de 2005. Realiza também o grande encontro cultural anual.  Um ano após a criação da FEIBEMO, fundou-se a Associação Coro Cento Lire em data de vinte e três de agosto do ano de um mil novecentos e noventa e sete. Com a necessidade de alteração de seu estatuto, passa a denominar-se de Associação Italiana Cento Lire.  

 

*Aliduino Zanella é Mestre em Educação e Professor da UnC

** Artigo na revista virtual www.cdr.unc.br nº 07, .sob o título “Instalações precárias em meio à mata a famílias exportadoras”

 


BREVE HISTÓRICO DA MIGRAÇÃO/IMIGRAÇÃO ITALIANA EM CAÇADOR E DA CULTURA QUE PRESERVA E DESENVOLVE
Ms. Aliduino Zanella

    O Brasil conta, segundo estatísticas, com uma população acima de vinte e cinco milhões de descendentes de italianos, originários da grande Imigração Italiana Agendada, entre os anos de 1875 e 1914. Essa população, em mais de oitenta por cento, é originária das regiões do Trivêneto (Vêneto, Friuli Venézia Giúlia e Trentino) e Lombardia do Norte da Itália. Esse imigrante participou ativamente da vida brasileira, provocando transformações substanciais na economia e na modernização da agricultura. Na Região Sul do Brasil a economia foi fortemente influenciada pela experiência e mão-de-obra Italiana quando da imigração em massa de famílias vindas da Itália que aqui se fixaram, trouxeram consigo sua cultura, seus costumes, seu dialeto e toda sua herança cultural riquíssima que até hoje é cultivada pelos seus descendentes que são orgulhosos em saber que seus ancestrais contribuíram para o desenvolvimento econômico e cultural nos municípios onde se instalaram. Reflexo disso são as inúmeras festas, festivais para sua preservação e demais eventos que têm como objetivo reforçar as tradições culturais para que não se percam ao passar dos anos.

    As primeiras famílias descendentes de italianos a chegarem a Caçador acontece antes do município existir, por volta do ano de 1919, provenientes do vizinho Estado do Rio Grande do Sul, trazendo consigo a vontade de trabalhar, iniciando, em princípio, na agricultura, destacando-se no plantio de trigo, milho, feijão, no cultivo das parreiras e na produção do vinho. Em seguida dedicam-se na indústria da madeira. Junto trazem costumes, a alegria demonstrada através de canções folclóricas, festas e a farta culinária.

    A saga dos descendentes de italianos e italianos em Caçador divide-se em migração e imigração. A migração em relação às atividades aqui desenvolvidas divide-se em atividades na agricultura e na indústria da madeira. A chegada dos primeiros agricultores teve início após a Guerra do Contestado e da construção da ferrovia São Paulo-Rio Grande, a partir do ano de 1917. Eram famílias de agricultores vindas das velhas colônias de imigrantes italianos estabelecidas na Serra Gaúcha. Nessas terras “della cucagna” (sorte-fortuna), geraram também muitos filhos. Daí a necessidade da busca de novas terras, o que aconteceu também em toda a Região do Contestado. Destacam-se logo com grande produção de uvas. Em conseqüência, surge a necessidade da criação de um sindicato dos trabalhadores rurais, sendo o primeiro do estado. Um ano após, por volta de 1918, estabeleceram-se, em Caçador, famílias de madeireiros, também provindas da Serra gaúcha, para explorar a araucária (o pinheiro brasileiro), a imbuia e outras madeiras nobres abundantes na região. Também acontece em Caçador a chegada de imigrantes italianos, em pequena quantidade é bem verdade, mas significativa em seus legados, contribuindo na construção deste município.

    Dentre os imigrantes, destaca-se o casal Dante e Albina Mosconi. Ao assumir o ditador Benito Mussolini, fundador do partido fascista, contrário as suas idéias, fogem da Itália, e após percorrer algumas regiões no Brasil, estabelece-se em Caçador no início de 1928. Originário de Bérgamo – Lombardia, ele engenheiro e ela enfermeira, fundam o Colégio Aurora, primeiro educandário em toda a região. Neste Colégio é criado o Curso Comercial que formava “Guarda – Livro”; o Colégio Normal, atual Aparecida; curso primário, atual Paulo Scheiffler. O mesmo abrigou, por muitos anos, a Escola Nayá Gonzaga Sampaio. Dante, na qualidade de engenheiro, projetou casas, estradas, pontes... Dentre os inúmeros projetos destaca-se a Igreja Matriz de Caçador e a de Videira.

    Para resgatar, preservar e cultuar o legado e riquíssimo patrimônio cultural italiano, necessita de sede própria, projeto de construção de um memorial que represente a imigração/migração de italianos e descendentes de italianos e seus feitos no desenvolvimento da região e esta sede a ser construída será representada pela “réplica do antigo Colégio Aurora”.

Caçador, novembro de 2007.


Aliduino Zanella
Presidente FEIBEMO


PRIMEIRAS FAMÍLIAS DE AGRICULTORES

GEMMA SCOLARO BASSEGGIO E FAMÍLIA, ATUAIS PROPRIETÁRIOS DE CASA HISTÓRICA

A FAMÍLIA MASSIMO ZAMPRONIO foi a primeira a residir na Linha Cará – Caçador - SC. Gemma Scolaro Baseggio é a atual moradora da casa construída em terreno da primeira família de agricultores colonizadora de Caçador. Em 1918 Massimo Zampronio adquiriu o terreno localizado na atual Linha Cará, Caçador – SC, iniciando atividade na agricultura, dentre elas a produção de uvas e vinhos. O terreno faz divisa com a Rodovia SC 3020, distante 8 quilômetros do centro de Caçador. Alguns exemplares de videira plantados por Massimo perduram até hoje. O terreno passou para o filho José Zampronio que vendeu para Santin Brusco e este para Reinaldo Basso que vendeu para João Baseggio (já falecido) há 74 anos. Na propriedade possui um parreiral já com parreiras renovadas em que permanecem alguns exemplares com mais de oitenta anos, ou seja desde 1918, ano em que Mássimo Zampronio iniciou atividades na agricultura.
Este é o depoimento de Dona Gemma Scolaro Baseggio, viúva de João Baseggio, atual proprietária da casa (foto) e que mora em Caçador desde 1933. Diz que o marceneiro que construiu a casa foi Sílvio Orso para o primeiro proprietário, Massimo Zampronio, por volta dos anos de 1918 a 1920. Casa típica construída em madeira costume da época dos descendentes de italianos separar a casa da cozinha para ficar distante do fogão a lenha e evitando assim pegar fogo.
O falecido marido de Dona Gemma Baseggio adquiriu o atual terreno de Reinaldo Brusco em 1950. Gemma conta que na região haviam muitas serrarias, dentre elas, a de José Pelissaro, a de Pedro (Pedrinho) Guardene e a de Argemiro e Hilário Pegoraro., todas no interior da Linha Cará


Caçador, 19 de setembro de 2007.


S.O.S. CULTURA LOCAL - REGIONAL
Ms. Aliduino Zanella*

    Globalização, segundo Johnson (1997), é um processo no qual a vida social é cada vez mais afetada por influências internacionais com origem em praticamente tudo, de laços políticos e de comércio exterior à música, estilos de vestir e meios de comunicação de massa comuns a vários países. O que seria uma sociedade cultural no século XXI, quando está ocorrendo todo um processo globalizado? Para Ramos (2003), com a globalização econômica esperava-se uma homogeneização das culturas, que seria uma ‘mistura’ entre os povos. Isto, segundo o autor, não está acontecendo na prática, ao invés das culturas se misturarem, as comunidades tentam se proteger e preservar a sua identidade cultural, pois o ser humano não consegue viver sem seus laços com o passado, com suas raízes, mostrando que ela precisa de sua identidade. A realidade em si nos mostra o contrário do que afirma Ramos, pois se percebe claramente que a tendência avança a passos largos em direção a uma hegemonia globalizada que, a seguir, tenta-se discorrer, para o qual recorre-se, com recurso, a argumentos de alguns autores que escreveram sobre o assunto.

    O fenômeno da globalização traz consigo, em seu discurso, a tentativa de se forjar um mundo homogêneo e unívoco. Nesse estágio do capitalismo que se vivencia, a globalização pretende tornar todos iguais e homogêneos, uma ‘aldeia global’, que não respeita as singularidades e especificidades locais e regionais e que não reconhece que a grande riqueza da humanidade é a sua diversidade étnico-cultural. Num mundo onde se pretende robotizar tudo, a obra de arte perde a razão e dá lugar ao produto único. Para que se consuma cada vez mais somos inconscientemente levados a cantar com a garganta de um cantor de sucesso, bailar com as pernas de outros bailarinos, e não com as que temos. Devemos ver o mundo com os olhos alheios e não com os nossos, chorar as lágrimas que não são nossas, sorrir com o sorriso que esculpiram em nosso rosto como pedra. (ROSAS, 2002).

    A globalização deseja o monólogo e exige o lucro em todas as suas atividades. Impõe a uniformização dos seres humanos, onde todos devem ser iguais, vestir igual e comer hambúrguer. Impõe normas de comportamentos, valores morais, ideologias e gostos estéticos. É importante para a globalização do lucro destruir as culturas nacionais, bem como as culturas locais, ou seja, dizimá-las a qualquer custo, nem que para isso milhares de pessoas agonizem em ‘pratos de fome’. Ao destruir suas culturas, destroem as próprias identidades.

    Coloca-se o indivíduo na frente da TV, esta como símbolo de controle, não como eletrodoméstico, para que deles se roube a subjetividade, transformando-o em coisa. Isola-se o individuo para que perca sua individualidade, e ao perder o diálogo, a alteridade, torne-se um mero ‘recipiente vazio’ sem nome.

    Na arte elimina-se o artista, aquele que cria o novo e, em contrapartida, entra em cena o técnico-artesão, aquele que produz para todos o mesmo produto. Se o artista se submete ao mercado, admite também suas leis. As leis do mercado são as leis dos mercadores, assim como a lei da selva é a lei do leão. Os produtores culturais não produzem mais arte para si mesmos, ao produzirem para os outros, a arte torna-se mercadoria, criando além do necessário, o gozo, o imediato.Como afirma Ramonet (1998), os efeitos do progresso tecnológico e as conseqüências sociológicas oriundas da globalização destruíram as estruturas espirituais seculares e provocaram a ruína de referências culturais extremamente antigas. A elevação do nível de vida, os progressos na área da saúde, a modificação da idéia de felicidade, conduziram a uma espécie de abandono dos valores. A mídia de grande audiência – em primeiro lugar cinema e rádio e, sobretudo, a televisão – difundem o modo geral de vida; a publicidade harmoniza os comportamentos, dita as compras, seleciona os objetos. Enquanto isso explodem as famílias, desfeitas pela revolução dos costumes, a liberdade sexual, aparecem ainda novos problemas relacionados ao estresse, solidão, afetividade, entre outros, dando ênfase a uma crise cultural oriunda da globalização.

    Vive-se uma nova referência de mundo. Um mundo globalizado onde o volume e a velocidade da informação circulam quase instantaneamente, acelerando o processo histórico em que as noções de tempo e espaço adquirem novos significados. O volume e a velocidade das informações em circulação afeta decisivamente o universo cultural da humanidade, produzindo mutações no comportamento dos indivíduos e das comunidades. O processo de globalização está trazendo profundas transformações para as sociedades contemporâneas. O acelerado desenvolvimento tecnológico e cultural, principalmente na área da comunicação, caracteriza uma nova etapa do capitalismo, contraditória por excelência, que coloca novos desafios para o homem neste século. Cultura, Estado, mundo do trabalho, educação, entre outros, sofrem as influências de um novo paradigma, devendo-se adequarem ao mesmo. Neste novo paradigma, a autonomia é privilegiada, tornou-se necessidade para a vida numa sociedade destradicionalizada e reflexiva. No mundo do trabalho, a autonomia é diferença que marca a mudança do predomínio do fordismo para o pós-fordismo. Já no que tange a educação, deve a mesma possibilitar o desenvolvimento desse valor, trabalhando o homem integralmente para que ele possa não só atender aos requisitos do mercado, mas também atuar como cidadão consciente de seus valores frente ao mundo globalizado. Demo (1996) diz que a degradação das identidades culturais, através dos meios de comunicação, da pressão política, da invasão de padrões externos, contribui para enfraquecer um povo, levando-o a consolidar posições de dependência e de subalternidade.

    A questão cultural no contexto internacional foi tratada na palestra Globalização e Diversidade Cultural no Mundo Contemporâneo, a primeira do Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural. O palestrante foi o presidente e diretor de Redação do periódico francês Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, que focou as consequências da globalização para a identidade cultural dos povos.Ramonet afirmou que a fase em que a sociedade se encontra atualmente é a da globalização. Mas isso não está apenas relacionado com a economia. Também existe no contexto da modernização uma extensão ao campo cultural. Somos a favor de um interconhecimento dos povos. Mas a globalização causa um custo aos símbolos culturais. Já que ninguém se opõe ao progresso, cria-se uma confusão cultural, explicou. Para exemplificar, ele citou os Estados Unidos da América (EUA), que, em sua opinião, é um dos grandes representantes do Neoliberalismo, um ideal que caracteriza tudo como mercadoria, inclusive a Cultura. Trata-se da mercantilização cultural, que representa uma grande ameaça para a identidade de cada povo, disse. Ramonet acredita que o modelo cultural dos EUA domina as artes, a informação, a mídia. Sendo assim, existe uma imposição da cultura norte-americana aos povos do mundo inteiro. Em vários lugares é visto como a cultura ocidental. As pessoas usam as mesmas roupas que eles (norte-americanos), escutam as músicas deles, vão ao cinema para assistir aos filmes que eles produzem. Esse tipo de imposição faz com que a cultura popular ou antropológica, baseada nas tradições, caia no esquecimento. Portanto, é preciso pensar nas culturas minoritárias, aquelas que, na maioria das vezes, foram a base para a formação de muitas nações, recomenda. Esse pensar nas culturas minoritárias baseada nas tradições a que se refere Ramonet, tem por objetivo a elevação e valorização de meios formativos étnicos diferentes, ou seja, o multiculturalismo que é um movimento que pode ser observado na inclusão de diversas línguas no currículo escolar e do estudo das etnias amplamente difundido nas escolas ultimamente, só para citar um exemplo.A questão e grande pergunta que se faz é se as lideranças, cientes e capazes de compreender as questões culturais querem realmente esse resgate e cultivar suas raízes e fazer a diferença, ou do contrário (infelizmente é o que vem acontecendo), todos vestem jeans, comem hambúrguer, batatas fritas, bebem coca-cola, fãs de cowtry e filmes bang-bang, só para citar algumas, em detrimento da valorização das verdadeiras origens. Mostrar e valorizar fala local e regional, hábitos alimentares, usos e costumes, valores, religiosidade, o que é peculiar de um grupo enfim, ou continua-se a ser apenas mais um povo que se deixou invadir, não resistindo ao invasor. Quando um povo tomar iniciativa de mostrar a sua cultura, não se deixar ofuscar pela elite dominante, ele crescerá e aparecerá fazendo com que a própria elite assimile e valorize ou pelo menos respeite também esse tesouro cultural, sentindo orgulho de ser caçadorense. Cultivar as origins de um grupo é dar condições para desenvolver as tradições natas, cultivadas de geração em geração, ou seja: o conjunto de características humanas que se criam e se preservam. Isto é cultura. Segundo Gandin (1998, p. 39), cultura “...é o que se faz, o que se leva em conta para esse fazer e o resultado dessa ação.” Dito de outra forma, fazem parte da cultura, pelo menos: os valores; os usos e os costumes e as normas que os mantêm; as ações e seus resultados. Assim, ciência, técnica, arte, religião e as ações e os frutos que lhes são ligados, bem como o senso comum e os resultados que ele produz, são a cultura. Cultura entendida e representada como aspectos materiais e não-materiais. A cultura material inclui tudo o que é feito, modelado ou transformado como parte da vida social coletiva, desde a preparação do alimento à produção de alta tecnologia. A cultura não-material inclui símbolos – de palavras à notação musical - , bem como as idéias que modelam e informam a vida de seres humanos em relação recíproca e os sistemas sociais dos quais participam, por exemplo: as atitudes, as crenças, os valores, as normas... A cultura não se refere ao que as pessoas fazem concretamente, mas as idéias que têm em comum sobre o que fazem e os objetos materiais que usam. O que os homens fazem é que torna visível a influência da cultura. Isto é, o poder e a autoridade da cultura na vida humana tem origem principalmente em nossa experiência, da mesma forma como algo externo a nós e que transcende o que fazemos na realidade.

A verdadeira cultura de nosso povo local e regional pede socorro!

“Um povo sem história é um povo sem identidade cultural.”

“Nós sabemos que bens culturais são portadores de valores. É a Cultura que nos permite acreditar em nossa identidade.”
Ignacio Ramonet

*Ms. Aliduino Zanella é membro do Conselho Deliberativo da recém criada Fundação de Cultura do Município de Caçador - SC.


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